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O Horizonte que Voa: como os drones estão mudando o cenário do café

No distrito de Imbiruçu, em Mutum, a Zona da Mata amanhece contrariando o calendário. Em 21 de novembro de 2025, o frio baixa para menos de quinze graus e embrulha a paisagem numa neblina que se crê inverno. Às sete da manhã, o sino da Igreja Católica marca o início do expediente, mesmo que ninguém ali ainda precisasse de lembrete. Sob a poeira vermelha — quase laranja — que sobe da rua principal, a geografia secular do café dá sinais de que está sendo reescrita por forças mais silenciosas do que o vento e mais rápidas do que o correr das motos: uma tecnologia que pretende, do chão ao céu, redesenhar o trabalho e o sonho rural.


ônibus passando numa estrada do interior
Única operação de transporte coletivo conectando a população às cidades de Mutum//MG e Ibatiba/ES. Foto: Domicio Faustino

O frio, o banco e a jornada antes do dia

A vida real não espera o sol espantar a geada. Ela começa antes. Pelo segundo dia seguido, meu irmão saiu de casa pouco antes das quatro da manhã. A cena não é excepcional: é rotina. Enquanto crianças encapuzadas, com mochilas cheias de cadernos e expectativas, ainda tropeçam sonolentas rumo à escola, os trabalhadores já estão horas adiantados — e a parte adulta da paisagem já girou metade de seu relógio.


De uma perspectiva da primeira pessoa, na avenida principal de Imbiruçu, distrito de Mutum, em Minas Gerais
De uma perspectiva da primeira pessoa, na avenida principal de Imbiruçu, distrito de Mutum, em Minas Gerais. Foto: Domicio Faustino

Do banco onde estou sentado, no centro da via principal, observo o desfile matinal. Motos passam como flechas — algumas com capacete, outras confiando na própria sorte — rumo às lavouras de café que se alongam pelas montanhas. A cada aceleração, a poeira sobe e pousa no meu telefone, obrigando-me a varrer a tela com sopros curtos entre um parágrafo e outro. Quando o sino toca, o fluxo das crianças cessa, as lojas erguem suas portas metálicas, e a engrenagem de Imbiruçu — na fronteira entre Minas e Espírito Santo — dá início ao seu turno.


Igreja Católica de Imbiruçu, distrito de Mutum, em Minas Gerais.
Igreja Católica de Imbiruçu, distrito de Mutum, em Minas Gerais. Foto: Domicio Faustino

O preço do café e o velho sonho de liberdade

O café, esse pilar econômico da região, voltou a pagar bem. E, como sempre que paga bem, reacende esperanças. Mas os velhos problemas continuam enraizados: falta gente disposta a fazer o serviço pesado, e o dia não ganhou horas extras. A moto, durante décadas, foi o primeiro sinal de ascensão: a máquina de marcas japonesas que libertava o jovem da roça da tirania das distâncias. O sonho de consumo continua o mesmo — liberdade, velocidade, independência — mas o mundo em volta mudou.


Uma casa velha ao lado de uma agência do Sicoob
Avenida principal de Imbiruçu, distrito de Mutum, em Minas Gerais. Foto: Domicio Faustino

Agora, a tecnologia tenta preencher o vácuo deixado pela mão de obra escassa. Se as motos resolveram o problema da mobilidade, os drones querem resolver o da produtividade.


Drone: A revolução que veio dos céus — e da China

Sem alarde, outra máquina começou a disputar espaço no imaginário rural: o drone pulverizador. Nascido de engenharias chinesas, o equipamento se espalhou pelo país com a velocidade das pragas que promete combater. Desde 2021, o número de drones agrícolas multiplicou-se mais de onze vezes, ultrapassando 35 mil unidades em operação no Brasil — um avanço que não se explica por capricho tecnológico, mas por pura necessidade.


Um drone voando sob uma lavoura de café
Os drones já fazem parte do horizonte que voa. Foto: Claudio Honorato

Os drones dispensam dias de trabalho braçal. Não precisam de sombra, água nem descanso. Pairam, avançam, pulverizam e voltam para casa com precisão quase militar. E, no processo, inauguram um mercado novo: o do aluguel de voo. Os produtores que podem compram o seu; os demais contratam o serviço por hectare e por hora, como quem chama um táxi. O que antes levava dois ou três dias de esforço humano agora termina em uma manhã de hélices.


Entre poeira, fé e hélices

Às sete da manhã, enquanto a poeira baixa e a rua reassume seu estado natural, é possível ouvir as camadas sonoras da vida local: o sino da fé, o ronco das motos que levam ao sustento e, ao fundo, o zumbido quase tímido das máquinas que representam o futuro. Na Zona da Mata, o sonho da moto — ainda firme e presente — divide agora espaço com a performance aérea dos drones.


Pulverização com Drone de uma lavoura de café em Imbiruçu, Distrito de Mutum, em Minas Gerais. Vídeo: Claudio Honorato

A nova economia de serviços que surge não é apenas um avanço técnico: é um rearranjo profundo do que significa trabalhar na roça. Uma história antiga, de suor e montanha, está sendo reescrita com a tinta digital das hélices e a pressa do progresso.


E Imbiruçu, entre a poeira vermelha e a neblina improvável, já respira o ar misturado do que sempre foi — e do que está se tornando.

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